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“Temos problemas em termos de capitães e chefes de máquinas”, Cristina Matavele, antiga DG da Ematum

Ontem, no julgamento das “Dívidas Ocultas” na BO, a Procuradora Sheila Marrengula destacou que a viabilidade do Ematum foi questionada pelos altos custos de operação dos três arrastões que deveriam usar isca (lula), além dos altos custos com seguros e taxas de atracação. A crítica veio de uma fonte interna – Cristina Matavele, que já foi a Directora Geral da Ematum, e deixou a empresa em 2016. Ela disse nos autos que o seguro custava 40 mil dólares americanos por trimestre para cada um dos barcos da Ematum, e as taxas de atracação eram 258 dólares por dia para cada barco.

“Ela nunca me disse que o Ematum não era viável!”, exclamou Rosário. O seu advogado, Alexandre Chivale, referiu que Matavele parecia ter mudado de ideias, visto que em 2015 tinha dado uma entrevista num suplemento no diário de Maputo “Notícias” em defesa da empresa.

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Cristina Matavele dizia que a Ematum era viável mas depois acrescentava o seguinte: “Penso que a frota é grande e o mercado não estava preparado. No princípio era difícil mas começam a aparecer pessoas qualificadas. Em termos de marinheiros simples, tem muitos, mas nós estamos a usar o palangre. Temos problemas em termos de capitães e chefes de máquina”.  Ou seja, Matavele se mostra cheia de contradições.

Cristina Matavele é uma figura das relações familiares do antigo Presidente Armando Guebuza e teve uma passagem polémica como gestora do gabinete de apoio às vítimas da explosão do Paiol de Malhazine, em Março de 2007. Eis sua entrevista ao “Notícias”, poucos meses antes de ser demitida da empresa.

EMATUM é viável, é uma questão tempo

TEMA DE FUNDO:

Sexta, 08 Maio 2015

NOT – O que é a EMATUM?

Cristina Matavele (CM):A EMATUM – Empresa Moçambicana de Atum – foi criada em Agosto de 2013. Os primeiros meses foram de criação de condições técnicas e administrativas para o seu funcionamento. Em 2014 recebemos as primeiras embarcações e a 5 de Dezembro começámos com as operações pesqueiras.

Tem como accionistas o IGEPE, com 34 por cento, e a GIPS e Emopesca, com 33 por cento cada.

NOT- … e não tem accionistas estrangeiros?

CM -Não temos nenhuma participação estrangeira.

NOT- Nalgum momento se disse que a EMATUM pertencia a uma empresa com sede numa das capitais europeias. O que diz?

CM -É engraçado. Estou na EMATUM desde a sua criação. A escritura da empresa foi feita em Maputo. Tenho aqui comigo o contrato da dívida. Essa EMATUM da Holanda, eu não conheço. Recebi chamadas de dois jornalistas e dei a mesma resposta, porque nunca ouvi falar dessa empresa. Os accionistas da EMATUM são os que acabei de enumerar.

Fizemos a assembleia-geral a 27 de Março porque as contas têm de estar fechadas até 30 de Março e não apareceu outro accionista senão aqueles. No ano passado fizemos a assembleia-geral um pouco tarde porque estávamos a organizar muitas coisas e abrimos as portas à Imprensa.

Não costumamos perder tempo com polémicas porque temos muito a trabalhar. Uns até perguntam porque é que estão a ter prejuízos. Eu nunca vi uma empresa que começa com lucros. Devo esclarecer que os nossos custos estão dentro das previsões e é normal ter prejuízos nesta fase, porque estamos a pagar contas. Nesta fase estamos a praticar preços relativamente baixos para podermos entrar no mercado. Temos enfrentado barreiras de penetração no mercado por causa da concorrência com embarcações estrangeiras que querem ser elas a abastecer os seus países.

O que me entristece nisto é que muitos vão na onda das polémicas e não vêem que os nossos recursos estão a ser dilapidados por pessoas de fora que pescam e não deixam nada em Moçambique. Mas penso que com o tempo as pessoas vão mudar de mentalidade.

NOT– A criação da empresa suscitou alguma polémica, questionando-se, por um lado, a transparência na aquisição dos fundos e, por outro, a viabilidade económico- financeira. O que se pode assegurar quanto ao último elemento?

CM -Não sei se se questionava a viabilidade económica da empresa, porque no ramo empresarial o segredo é a alma do negócio. Acho que a EMATUM era um sonho e um sonho não se revela aos outros, antes da sua concretização. Portanto, não sei se se estava a questionar a viabilidade porque uma empresa pode nascer sem concorrência e não ser viável. A viabilidade de uma empresa não tem nada a ver com a publicidade. A viabilidade tem a ver com a gestão e o mercado. Levantou-se uma polémica e eu não estou interessado em entrar nela.

NOT- … então, assegura a viabilidade da empresa?

CM -Pelo que vejo, a empresa é viável. Estamos a produzir e, ao mesmo tempo, a formar recursos humanos, por isso os nossos custos são muito altos. Acredito que quando tivermos todos os barcos a operarem e com todo o pessoal formado, a empresa terá pernas para andar.

NOT– Em quê assenta essa viabilidade?

CM -Em termos de capacidade, a EMATUM é a única empresa moçambicana com frota desta envergadura (24 barcos). Os nossos barcos estão equipados com uma tecnologia de ponta, a capacidade dos porões é alta e existe atum em quantidade suficiente. Agora estamos a fazer peixe congelado porque ainda não podemos fazer peixe fresco, uma vez que ainda não temos pessoal preparado. O peixe fresco é muito delicado. Mas quando evoluirmos, dentro de meses, para o peixe fresco, as nossas receitas vão crescer.

NOT– Quanto tempo será necessário para a empresa começar a recuperar o investimento?

CM -Neste momento temos custos muito altos. Não me é possível dizer que este ano ou o próximo vamos conseguir sair deste cenário. No início foi complicado, porque quer nós quer os órgãos reguladores estávamos a entrar numa actividade nova. Estivemos a trabalhar com uma empresa estrangeira e agora já estamos em condições de sermos nós, moçambicanos, a gerir o negócio. Pela primeira vez temos um barco com uma tripulação só moçambicana. Os nossos custos operacionais são bastante altos, mas acredito que até ao final do ano poderão começar a baixar, porque vamos começar a eliminar algumas coisas.

Em relação à recuperação do investimento, isso é algo que estamos a estudar e a monitorar. Na verdade, fez-se um estudo de viabilidade e foi se buscar financiamento, mas à medida que entramos no mercado vamos ajustando a nossa estratégia. Aquilo que era um sonho está a tornar-se realidade e ao invés do estudo de viabilidade, temos de trabalhar com um plano de negócio mais próximo da realidade.

Seguro pesa mais por ser custo fixo

NOT – O que mais pesa na estrutura de custos?

CM:Os seguros é que pesam mais. Em termos de mão-de-obra, o valor não é tão alto assim, porque a maior parte é moçambicana, não que estejamos a pagar mal (até porque alguns operadores dizem que estamos a inflacionar os salários). A tecnologia que está nos barcos exige muita responsabilidade e isso tem preço. Neste sentido, vamos mandando trabalhadores para o estaleiro, em França, para treinamento. Portanto o seguro é que pesa mais, por ser um custo fixo, para além dos juros de serviço da dívida.

NOT – Em Maio chega a última leva de barcos. Quando é que a empresa vai funcionar em pleno?

CM:penso que até ao final deste ano. Quando os barcos chegam, começamos a preparar as equipas. Neste momento (Abril) estamos a preparar dois de seis barcos e os outros quatro têm as certificações quase prontas e equipas também (capitães e marinheiros) e depois vamos tratar dos outros seis que ainda vão chegar.

NOT – Qual tem sido a média de produção?

 

CM:Na primeira faina foram cerca de duas toneladas por barco. Agora os barcos voltam sempre com acima de cinco toneladas, porque o pessoal está a familiarizar-se com as técnicas. Já tivemos casos em que as embarcações voltaram com 12 toneladas. Os nossos barcos têm capacidade para 30 toneladas, mas trabalhamos 24 toneladas. A nossa aposta é atingir 15 toneladas, nos próximos meses.

Então, quando tivermos todos os barcos teremos capacidade para 30 toneladas vezes 21 barcos vezes duas fainas por mês por barco.

NOT – Qual é a projecção da receita?

CM:Para o peixe fresco estamos a falar de oito a treze dólares por quilograma. O pessoal está a ser treinado para lidar com o peixe fresco porque o seu preço é mais alto. O fresco é muito exigente, uma vez que até ao terceiro dia tem de estar no prato do cliente, quando o congelado pode ser conservado até 18 meses.

Nossa preocupação deve ser só a pesca

NOT – Para quando o processamento interno do atum?

CM:Nós queremos nos ocupar apenas com a pesca, porque temos muitos barcos com 14 pessoas cada um deles, com todos os problemas que isso representa em termos de logística, incluindo assistência médica.

Gostaríamos de encontrar uma parceria. Queremos dar oportunidade a outras empresas. Estamos a preparar uma sala de processamento, mas acredito que com a quantidade de pescado que prevemos, precisaremos de mais gente para trabalhar.

Notamos que o consumo de peixe é ainda muito baixo em Moçambique. Contactámos alguns parceiros para a venda de pescado e soubemos que nas mercearias as vendas não passam de 15 porcento. Alguns dizem que as pessoas não gostam de peixe em filetes. Pensamos que no mercado internacional saímos bem. Projectamos exportar 90 por cento da produção para conseguirmos divisas para o serviço da dívida e 10 por cento para o mercado local. Este é um impacto inicial e daqui a pouco as pessoas vão querer consumir o atum. O consumidor costuma ver o atum enlatado, mas o fresco é mais saudável.

NOT – Quando é que fica pronta a sala?

CM:Dentro em breve porque já remetemos os documentos ao Instituto Nacional de Inspecção Pesqueira para aprovação do layout e certificação. A sala terá capacidade para 40 toneladas por mês. No mar mata-se o atum, tira-se a cabeça e extraem-se as vísceras. O processamento consistirá no corte do peixe em filetes e postas para o mercado interno. Neste momento o atum é exportado por inteiro.

NOT- Qual é o serviço da dívida?

CM –Até agora pagamos os juros, mas a partir de Setembro vamos começar a pagar o capital também. A prestação de Setembro vai ser de 45 milhões de dólares mais 15 milhões de juros.

NOT – Qual tem sido o mercado de exportação?

CM:Já fizemos as primeiras exportações para China. Colocamos o atum em diversos mercados e cada um deles tem as suas exigências. Em relação ao mercado europeu temos duas embarcações certificadas pelo Instituto Nacional de Inspecção Pesqueira. À medida que vamos registando os barcos essa informação é enviada para a União Europeia. Tanto na conservação como nas embarcações há certificação para se poder exportar para o mercado europeu. Então, temos três embarcações que estão a pescar mas que não podem exportar para a União Europeia, mas podem vender noutros mercados como China e Estados Unidos da América. Próximamente vamos exportar para a União Europeia e para outros países.

NOT – Qual é a capacidade mensal de exportação?

 

CM:Não temos limite. Depende das quantidades em stock. Neste momento estamos com cinco embarcações e por cada faina consegue-se, no mínimo, cinco toneladas, por barco. Portanto, estamos a falar de mais ou menos 25 toneladas por faina. Por mês e com cinco barcos podemos estar a falar de 50 toneladas, quantidades que podem subir com a entrada de novos barcos.

Formar custa dinheiro e tempo

NOT – Um dos desafios é a falta de quadros qualificados nacionais para as necessidades dos barcos. Como se estão a organizar?

CM:É um desafio muito grande. Temos poucas pessoas formadas. Temos gente com conhecimento prático que está a ser formada. A formação custa dinheiro e tempo até que as pessoas estejam aptas para viajar. Está a ser muito difícil encontrar no mercado nacional pessoal capacitado e é por isso que, nalgumas vezes, trazemos de fora. Estamos a pensar fazer parcerias com a Escola Náutica que forma engenheiros navais e com a Escola de Pesca para introduzir as matérias relacionadas com a arte de palangre que usamos para a pesca do atum. Fizemos apelos para interessar parceiros, porque temos muitas vagas para emprego.

NOT – Quando encomendaram os barcos previam esta rapidez da entrega, porque se calhar é o que está a criar problemas de pessoal?

CM: Para nós os barcos até chegaram tarde. O que aconteceu é que os barcos vinham com alguma capacidade instalada, em termos de dormitórios, e tivemos de acomodar mais pessoas. A equipa era para ser formada por seis tripulantes, mas concluímos que precisávamos de mais pessoas para lidar com o peixe, que nalgumas vezes chega a pesar mais de 200 quilos.

NOT – Quer dizer que isso é que provoca o défice de pessoal?

CM:Penso que a frota é grande e o mercado não estava preparado. No princípio era difícil mas começam a aparecer pessoas qualificadas. Em termos de marinheiros simples, tem muitos, mas nós estamos a usar o palangre. Temos problemas em termos de capitães e chefes de máquinas.

 

NOT – Até à criação da EMATUM, a frota era maioritariamente estrangeira. A empresa está a conseguir ombrear com os estrangeiros que abundam no oceano Índico?

CM:Aqui talvez esteja o segredo de algumas polémicas. Num mercado em que nunca se esperou uma empresa moçambicana quando ela surge se torna adversária. É normal. Quando surge algum concorrente a ideia é denegrir esse concorrente. Já houve quem dissesse que o sonho da EMATUM ia se tornar um pesadelo, porque estavam a entrar barcos e que a empresa não sabia lidar com eles. Mesmo que tivéssemos todas as equipas completas para os barcos, a nossa entrada tinha de ser gradual, ir monitorando todos os cenários. Nós queremos nos impor no mercado e as capacidades que existem, segundo o estudo do Ministério das Pescas, são de 180 barcos. Se nós evoluirmos vamos aumentar a nossa frota.

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